O padre Marcos Sandrini escreveu durante mais de quatro anos a coluna Dom Bosco Hoje do Boletim Salesiano. Seu primeiro artigo foi sobre os traços característicos da ação educativa do Pai e Mestre da Juventude.  

O que salta à primeira vista em Dom Bosco é seu carisma de educador. Sempre e em toda parte, Dom Bosco foi, é e será educador das novas gerações. Para conhecê-lo, é importante apresentar alguns traços singulares de sua ação educativa.

A palavra educação tem sua origem na língua latina. Ex-ducere é uma palavra composta. O prefixo ex- significa para fora. O radical ducere significa conduzir, tirar. Educar seria tirar para fora todas as potencialidades, todas as possibilidades de uma pessoa. Como a chave do interior de uma pessoa é propriedade exclusiva dela, a educação é uma obra pessoal. Os chamados educadores são os facilitadores, os orientadores, os assessores nesta tarefa. Nisto Dom Bosco é mestre. Ele é mestre em corresponsabilizar as crianças, adolescentes e jovens em sua educação. Toda educação é uma proposta que pode ser aceita ou recusada. A aceitação, em geral, brota da capacidade de formular a proposta da maneira mais convincente e convicta.

Educação é obra do coração

Esta expressão é atribuída a Dom Bosco. Significa que a educação tem que atingir o mais profundo da pessoa. Na Bíblia, na tradição popular e nas diversas religiões, o coração é o centro de decisão mais profundo da pessoa. Educação é obra de profundidade e não de superficialidade. Além disso, educação é obra do coração porque cria vínculos. Educa-se criando laços, apresentando modelos e pessoas significativas.

A graça da unidade

Dom Bosco é o santo que nunca olha a pessoa a partir de uma única dimensão. Só religião não é bom. Só razão, também não. A emoção sozinha também é perigosa. Por isso, Dom Bosco propõe religião, razão e emoção. As três juntas dão a dimensão da integralidade… Dificilmente Dom Bosco propõe uma única dimensão para a educação da pessoa.

Protagonismo diferenciado e complexo

Impressiona muito quem conhece a vida de Dom Bosco a quantidade de jovens que ele encaminhou para a santidade: Domingos Sávio, Luis Orione, Luis Guanella, Miguel Rua, Felipe Rinaldi, José Alamano, Maria Mazzarello… São muitos os jovens santos que viveram no Oratório de Dom Bosco. Além disso, de meninos difíceis, em situação de vulnerabilidade, ele foi capaz de construir personalidades robustas tanto para as famílias, quanto para a cidade e a pátria.

Resiliência

Não há pessoa perdida. É de Dom Bosco a frase: “Em todo jovem, mesmo no mais difícil, há sempre uma corda sensível ao bem. Cabe ao educador descobri-la e a partir dela reconstruir a sua vida”. Não há jovem perdido, sobretudo hoje quando as ciências humanas avançaram tanto: pedagogia, sociologia, psicologia… Mais ainda, no mais profundo do coração humano, o Espírito Santo de Deus continua influenciando as pessoas.

Horizontes. Medida elevada.

Um dos critérios mais correntes para escolher uma profissão é “ganhar dinheiro”. As escolhas são feitas nesta linha. É muito pouco. A pessoa não pode ser reduzida à sua dimensão econômica. Conversando com um jovem noivo perguntei-lhe se estava com a data de casamento marcada. Ele respondeu que ainda não. Por quê? Porque, dizia ele, toda pessoa tem que ter quatro maturidades para assumir um casamento: a física, a psicológica, a econômica e a espiritual. Dizia-me ele que tinha duas destas maturidades bem encaminhadas: a física e a econômica. Faltava-lhe, no entanto, crescer ainda nas dimensões psicológica e espiritual. É verdade. Educar é propor horizontes altos, profundos e transcendentes.

Caridade promocional e libertadora

Dom Bosco viveu numa época de grandes reformas educacionais. Ele se engajou em todas elas de forma crítica e entusiasta. Se há um santo que lutou para proporcionar escola para as novas gerações foi ele. Dom Bosco forneceu três tipos de pães para os jovens: o pão da padaria, o pão da educação e o pão da eucaristia. Para ele, estes três pães estavam entrelaçados. Jesus nasceu em Belém, que significa “casa do pão”. Neste sentido, a casa de Dom Bosco sempre foi a casa do pão. Para ele, o honesto cidadão é aquele que tem uma profissão e um trabalho de onde tirar o sustento para si e para sua família. Nisto ele foi exemplar e persistente.

Gradualidade

Há uma expressão que Dom Bosco usou com certa frequência: “O ótimo é inimigo do bom”. O ótimo é inimigo do bom quer dizer que a medida alta é proposta para todos, mas é vivida de forma diferente por todos. O Oratório Salesiano não é para a elite, mas é para todos e respeita a caminhada de todos. A quem vem à casa salesiana só porque o estudo é bom e forte, oferece-se também a possibilidade do voluntariado, do alto padrão ético, da solidariedade, da santidade. Tanto é verdade que a educação salesiana não é minimalista, que já possibilitou o surgimento do único santo adolescente da Igreja Católica não mártir, que é São Domingos Sávio (1842-1857).

Na escola do Mestre

Certa vez participei de um diálogo com dois ateus. Eles afirmavam que acreditar em Deus significava terceirizar a vida, entregar para outro o sentido da própria vida. Isto era perder a própria autonomia. Disse-lhes que eles tinham o direito de pensar assim, mas também eu tinha o direito de pensar diferente. Como posso ser fundamento de minha própria vida se sou tão frágil, tão inconstante, tão pecador? O fundamento de minha vida é alguém que é fiel, constante, reto no agir. Não significa ser prepotente, mas coerente. A coerência humana é muito frágil. A coerência faz parte do ser e agir de Deus. Ele é constantemente e sempre: bom, belo e verdadeiro. Colocar-se na escola do Mestre Jesus é aceitá-lo como fundamento da própria vida. Seguir o Jesus no final e no fundo é o grande objetivo da educação dos que põem o seu Evangelho como seu horizonte e sua perspectiva.

Do Boletim Salesiano

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *